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EXPOSIÇÕES
EXPOSIÇÃO PASSADA
MARCONE MOREIRA
DE 22 DE FEVEREIRO A 5 DE ABRIL
PESO À TERRA >> MARCONE MOREIRA


Sobre ecologias



Cristiana Tejo 


Há algum tempo a palavra ecologia assentou em minha cabeça. Consequência não dos alertas do aquecimento global e da chamada para a sustentabilidade, mas por tomar conhecimento das obras de Boaventura de Sousa Santos e de Andrew Abbott. E ao me defrontar com os trabalhos de Marcone Moreira presentes na exposição Peso à terra esta presença vivificou-se. Explico. O primeiro autor citado esboçou uma Ecologia de Saberes que busca o reconhecimento dos saberes derivados de outras racionalidades e a recuperação dos saberes e das práticas dos grupos sociais que, devido ao capitalismo e aos processos coloniais, foram histórica e sociologicamente colocados na posição de serem apenas objetos ou matéria-prima dos saberes dominantes, considerados durante os últimos quatro séculos como os únicos válidos. Sem negar a assimetria dos saberes e as complexidades envolvidas nas operações de tradução e de diálogo, Boaventura pontua que "como cada saber só existe dentro de uma pluralidade de saberes, nenhum deles pode compreender-se a si próprio sem se referir aos outros saberes”. E completa: "Os limites e as possibilidades de cada saber residem, assim, em última instância, na existência de outros saberes e, por isso, só podem ser explorados e valorizados na comparação com outros saberes”.


O que ele tem chamado de Epistemologias do Sul é a tentativa de incluir o máximo de experiências de conhecimentos do mundo, inclusive, depois de reconfiguradas, as próprias experiências de conhecimento do Norte hegemônico, já que se trata justamente de subverter modos de entendimento do mundo em que está implícita uma lógica binária, combativa, intolerante e com pretensões de universalidade. A conversa de Sousa Santos com Marcone Moreira se estabelece no trânsito praticado por este artista entre instâncias de saber e de fazer múltiplas. Evidencia em algumas de suas fotos a violência dos embates pelo direito à terra no Pará, discussão esta pode ser relocada em várias outras partes do planeta. Em Equador e Tordesilhas, encontra-se a dupla violência epistêmica: a medição do planeta e a partilha de terra pelos instrumentos colonizadores. A solução formal de muitos de seus trabalhos passa por uma engenhosidade dos poucos recursos e do mínimo gesto para se chegar num resultado sofisticado e que remete a uma árvore genealógica de referências complexa e frondosa, que compreende desde Duchamp, passando pelo construtivismo e as instaurações abstracionistas (de matrizes amazônica, norte-americana, russa, carioca) e os objetos que se insurgem contra categorizações fáceis (em especial nas tentativas de enquadramento se são pinturas ou esculturas). Há uma atitude deste artista de intercambiar visualidade, códigos e processos de construção a partir de uma constelação de saberes.


Agora a peleja de Marcone com Andrew Abott, sociólogo que cunhou o termo ecologias ligadas para observar a interdependência do mundo social. Ao invés de visualizar uma ecologia particular como sendo um conjunto de pontos fixos, Abbott reconceitua o mundo social em termos de ecologias ligadas em que cada um dos pontos atua como um (flexível) cercam para os outros. O sociólogo desenvolve o argumento em torno de uma análise ecológica particular, a das profissões e a dimensão de suas interrelações, mas sua metodologia analítica poderia ser estendida ao estudo de outras dimensões da vida social, como o mundo da arte. Significaria visualizarmos não apenas um mundo da arte fixo e estável, mas vários mundos das artes que se tocam, se repelem, se chocam, entram em atrito e em convergência em momentos e por períodos próprios e não previsíveis. Artistas poderiam ser vistos como portadores de duplo, triplo, poli pertencimentos, ativando dinâmicas simultâneas ou subsequentes dependendo de seus trânsitos. Creio que esta imagem aproxima-se mais do que ocorre na atualidade artística mundial. Marcone é desses artistas que experiencia ambientes artísticos discrepantes. Vive em Marabá e atua numa cena cultural de fraca institucionalidade e de dinâmica própria e frequenta os grandes eventos de arte seja com a exposição de seu trabalho ou com sua presença como agente artístico. Fiquei pensando que se ele fosse nova-iorquino, não realçaríamos a sua origem, já que na concepção convencional de uma visão unívoca de mundo da arte, Nova York é o "universal”. Entretanto, o equívoco não reside em localizarmos Moreira, mas em não localizarmos artistas oriundos e residentes em países e cenas artísticas hegemônicos. É urgente que revisemos a visão planificadora do mundo.


Contudo e por fim, a obra de Marcone Moreira ainda faz emergir a acepção tradicional do termo ecologia, ou seja, o estudo da casa ou a ciência que estuda as interações entre os organismos e seu 'ambiente', pois não podemos ignorar seu contexto: a Amazônia. Sua prática está inscrita num local que diz respeito ao mundo, mas que carrega vivências muito peculiares tanto na dimensão natural/material quanto simbólica. O artista se apropria de refugos do seu entorno e reconfigura-os plasticamente, reescrevendo a máxima de Lavoisier: "na cultura nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Sua arqueologia é uma clara resposta ao seu meio e aos vários atravessamentos que a contemporaneidade gera, mas que na região amazônica eles se superlativizam. A ecologia nos traz esta dimensão de que onde parece ser só beleza e harmonia, há conflitos, desequilíbrios, assimetrias e embates. Mas rompendo com o automatismo clássico de associar a beleza ao bem, notaremos que o belo pode ser mal, trágico e destruidor. E que muitas vezes coisas têm que ser destruídas para a vida continuar existindo. Dar peso à terra, como nos sugere Marcone Moreira, talvez seja situarmo-nos na dimensão do aqui e do agora com olhos e mente realmente abertos para apreender nosso inquietante velho mundo novo.


 


Recife, fevereiro de 2014


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